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Fantasma da Orquestra

A melancolia crónica de uma pseudo violinista maluca.

A melancolia crónica de uma pseudo violinista maluca.

Conversas sobre o Tempo #9

Tem chovido bem. Hoje está sol, mas já tive de pôr o desumidificador em funcionamento outra vez.

 

Estou lentamente a começar o processo de me tornar uma plant mom. Primeiro era um vaso com gladiolos tristis (que já se afilharam, mas ainda não foi este ano que floriram... cresceram só um bocadinho mais), hortelã e salsa (a salsa deixei-a morrer de seca no verão, a hortelã regressou dos mortos), e mais deslize menos deslize vão vivendo. Entretanto algures no outono passado trouxe uma suculenta do quintal da avó, que não sei como se chama, mas é bonitinha, e está-se a dar bem.

E este fim-de-semana veio para cá um vaso de rosmaninho em flor, que há anos andava a namorar a ideia. E ainda cogito a hipótese de tentar semear novamente alfazema, que acho que há sementes no meio da alfazema seca que tenho numa caixa, que já tivémos alfazema no quintal (só que alguém se fartou dela, coitada). E menta, temos menta no quintal e aquilo dá um chá muito bom.

Com isto tudo, quero ver mais quanto tempo levo até encher o quintal e o corredor de vasos de plantas.

É caso para dizer, se não se pode ir ao campo, o campo há de vir até nós.

 

Já reparei que muitos dos que mais apologia fazem de ficar em casa e não sair nem para comprar pão são, e isto pela amostragem a que tive acesso e que pode não corresponder a todo o país, mas certamente corresponde a uma boa fatia pelo menos aqui da zona, são os mesmos que têm quintas e herdades. Ou pelo menos um quintal, ou uma varanda que seja.

Senhores, eu tenho três janelas e uma clarabóia. Com um bocadinho de jeito e se não me der muitas vertigens, consigo sentar-me no parapeito da janela da sala. (Quando falo em quintal, a parecer que tenho um quintal, é em casa dos meus pais, entendam.)

Vamos a ser realistas: como eu vive muita gente, ou pior um pouco ainda; é irrealista achar que vamos fechar todos em casa sem poder dar um passo na rua, nem para pôr o lixo. Quando isto acabar, a saúde mental de muitos deve ter levado um traço dos grandes, se não éramos todos já lixados da marmita antes.

 

Com isto tudo, deixem-me dizer-vos que acho uma piadola (na verdade não) ao pessoal que tem quintas. Primeiro porque é aparentemente o sonho de todos de 40 anos para cima, malta casada com filhos e com empregos mais ou menos fixos, ter uma quinta com um casarão grande. Quando o conseguem, a malta que consegue, andam muito orgulhosos de ter um casarão com uma sala grande, com uma bruta de uma lareira, e quartos para isto, e para aquilo, e um pomar, e galinhas. Esquecem-se sempre de mostrar o lado da gestão das coisas. Porque ou metade da casa fica em standby e acumula pó, ou contratam uma empregada, ou há alguém que não faz outra coisa da vida senão limpar o casarão (e quanto maior, mais salas para limpar). E o pomar precisa de trabalho, precisa de adubar (nem vou falar do cheirinho), de ser lavrado de quando em quando, cuidar das árvores... uma coisa é ter um limoeiro no quintal (que mesmo assim dá trabalho, tem de ser podado e limpo dos bichos, e muitas vezes é deixado por conta própria, coitado). O galinheiro tem de ser limpo, ou fica incrustrado de caca até ao tecto, e cocó de galinha cheira mal. Dar comida às galinhas e ao cão e a mais que lá estejam, cozinhar para os próprios...

Tenho experiência de onde, do monte da minha avó. Que se levanta de manhã e até à noite não pára, com o que há para fazer, e olhem que só tem galinhas, cães e um quintal com flores e uma horta. Sim, é bom por um lado, temos ovos das galinhas, e da horta tiram-se couves, cebolas, espinafres, alhos, alhos franceses, pimentões, abóboras, ervilhas, beringelas,... e a trabalheira que dá.

Fora a parte, que penso que a maioria da malta resolve com grandes antenas, de que no monte dos avós só se apanha rede no telemóvel a fazer equilibrismo na casa de banho, ou no telhado do quarto mais a leste... ou só mesmo em cima do cabeço do vizinho. Compras só no mercado da aldeia, onde é tudo, pelo menos, 50 cent mais caro. Longe de centro de saúde, de hospital, de lojas, de posto de correio, de bancos...

Sobretudo, é a presunção com que a maioria fica de que em podendo pagar uma quinta, são superiores a toda a gente, e vivem muito melhor e mais saudável. E dá-me graça falarem comigo como se eu não soubesse o que é viver numa quinta e eles é que me mostrassem o quão bom aquilo é, eu que já passei metade da vida no campo, a andar por entre aqueles montes a apanhar espargos e amoras, trepar a árvores para apanhar laranjas e ficar meio esfarrapada que as tramadas das árvores têm espinhos mais compridos que o meu polegar, andar com galinhas ao colo (elas detestam adoram-me).

E mesmo assim não trocava a minha casa por isso.

 

Não são mais que os outros por terem uma quinta. Não são menos que os outros por viverem numa casa com três janelas e um vaso de rosmaninho numa delas.