Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fantasma da Orquestra

A melancolia crónica de uma pseudo violinista maluca.

A melancolia crónica de uma pseudo violinista maluca.

De uma violinista piegas

Querida Joana Latino,

 

não te conheço, confesso, e tu muito menos a mim, provavelmente nem sequer vais chegar a ler estas palavras que te dirijo. Ouvi dizer que és jornalista e apresentas um programa chamado Passadeira Vermelha. Desculpa, não conheço, não faz o meu género de programa. Provavelmente também dirás o mesmo do meu género de música, embora tenhamos de reconhecer que qualquer um sabe quem foi Mozart.

 

Olha, venho aqui falar-te como artista, ainda que eu tenha às vezes dificuldade em me ver como uma, porque estou só a começar, oportunidades ainda não são muitas, só trabalhei ainda com duas orquestras em estágios, mais duas orquestras de conservatório e universidade, e ainda só fui ao CCB uma vez. Talvez me considere quando tiver o diploma, digo para mim mesma. Mas, as oportunidades são mesmo muito escassas, e não só para mim. Para os meus colegas de instrumento. Para os outros de outros instrumentos. Para cantores líricos, ou mesmo os cantores pop em início de carreira. Para os bailarinos, actores de teatro tradicional, artistas plásticos, escritores...

Eu sei que muito provavelmente querias só elogiar a cena do Bruno Nogueira. Mas saiu-te o tiro pela culatra quando a forma que encontraste para o elogio foi a rebaixar todos os outros, que na minha terra é aquilo a que se chama, em bom inglês, a dick move. Foi feio, Joana, bem feio.

Sabes, nem toda a gente consegue chegar e poder fazer coisas deste género, Joana. Verdade. A sério sério, como também se diz. Para fazer um directo ou vídeo com alguma qualidade é preciso algum material, que nem todos temos. Mesmo que tentemos partir para o lado do "até um telemóvel ou computador barato serve, e todos têm um", no caso de alguns como eu em que o equalizador de 90% dos microfones desses aparelhos mutila o som do violino, acaba com fortes e pianos, é incapaz de captar acima de um mi sem parecer um gato a vomitar dentro de uma grafonola velha, podes imaginar que... pois bem, não é lá muito agradável para os ouvintes, pois não?

Acima de tudo, tenho de te explicar, enquanto o Bruno Nogueira faz um directo que reúne meio país, a Casa da Música fez um directo de uma gravação excelente do Réquiem de Mozart, tocado pela orquestra e coro da Casa da Música na época em que ainda se podiam fazer concertos, e teve cento e tal pessoas a assistir. Eu era uma delas. E quando eu fiz um directo de um concerto da orquestra da universidade, nós a tocar em Portel, tive no máximo quatro ou cinco pessoas a assistir, e só uma delas ficou até ao fim. Era o meu pai, Joana.

Se eu fizer um directo amanhã, a tocar o repertório que tenho de gravar para o meu exame, (moços, violinista sozinha a tocar o concerto nº 3 de Mozart, o concerto de Mendelssohn e o Cantabile do Paganini, alinham?) quantas pessoas achas que o meu directo vai ter? Uma, o meu pai? Cinco? Vinte? Zero?

 

Sabes Joana, é difícil ser artista. Não sabes, obviamente, porque não és uma, mas tantos que eu aí vejo e com quem contacto, que desenham um livro ou um site inteiro, levam trezentas postas de pescada em cima de quem julga que sabe mais mas nem um boneco de palitos desenha e ainda acha que não devem ser pagos. Eu vejo esses artistas plásticos a partilharem como fazer um contrato certinho, porque de outra forma já sabem que se arriscam a não ser pagos, que vai sempre haver alguém que lhes toma o tempo e depois foge sem dar um cêntimo. Nós, que vivemos quase exclusivamente de espectáculos ao vivo e os vimos todos cancelados, não sabemos do que vivemos. Nem todos tivémos acesso às "ajudas". Eu, por exemplo, não tive. Não tenho como. Oficialmente sou só estudante e tenho rendimento zero. Inoficialmente, que não me deu para fazer o recibo a tempo antes desta crise estalar e eu nem poder sair de casa, recebi 100€ por um concerto em Janeiro, e 5€ a tocar na rua. Ganhei mais algum, trabalhei num restaurante onde nem contrato me fizeram.

É disto que falas quando dizes que somos todos piegas, Joana? Porque é disto que falamos quando dizemos que não temos apoio, é disto que falamos quando dizemos que a cultura em Portugal tem sido sistematicamente esquecida, posta de lado, sem incentivo nem sequer na educação de um novo público, enquanto continuamente impingimos à geração futura telenovelas, futebol e musiquinha pop de qualidade rasca (exercício a quem acha que não: peguem nos livros de educação musical dos anos 70/80, um dos anos 90/2000 e um agora de 2018 ou 2019 e comparem os conteúdos e os exemplos...). É de pessoas como eu, sem contratos no papel quando trabalhamos, sem certezas, sem espectáculos, ou concertos pagos a recibos verdes e não mais que isso. Que agora têm nada.

Já agora, e o Bruno Nogueira e amigos receberam alguma coisa pelos directos? É que eu saiba não, e trabalhar só por amor à camisola ou só para aquecer fica difícil, Joana.

 

Pensa um bocadinho nisso antes de escrever ou dizer mais uma dessas, está bem? Não custa muito.

Polen-20

Temos andado a dar uns passeios. Tudo muito higiénico, somos só três pessoas, quatro no máximo quando conseguimos arrastar o meu irmão connosco, é no campo no meio do mato, chaparros e azinheiras e oliveiras e ovelhas. Mesmo ao pé da cidade. Um luxo. Além disso, faz mais de um mês que não saio de casa nem contacto com mais ninguém a não ser os meus pais, portanto a pegarem-me qualquer coisa só eles, e muito dificilmente pego alguma coisa a alguém.

 

Estava a correr bem demais, até, considerando que é aquela época do ano. Até este fim de semana. Se tivesse levado um murro na cara, ali mesmo em cheio no nariz, teria ficado em melhor estado. Fuuuu...

Uma espirradeira que só visto, olhos a arder, completamente incapaz de tolerar o sol, e à noite uma sinfonia de chiadeira. Toca de tomar o anti-histaminico, e na vez seguinte já ia de máscara e óculos de sol (e já não é a primeira vez que faço isto de andar de máscara para não andar a snifar o pólens todos da região). Pessoal é que acha esquisito, e chato, é uma sauna facial que chega a parecer que tenho uma fonte em vez de um nariz, mas a paz que se ganha ao não chegar à noite a casa e estar para morrer é um enlevo.

Enfiem a Liga no...

Detesto, odeio futebol.

Pois que andamos a cancelar tudo o quanto seja festivais, eu choro por todos os que já perdi e rezo a pés juntos a todos os deuses, demónios e eldritch que pelo menos o Zêzere Artes se mantenha, que assim vou e faço esse. Não há FMM, não há Marvão Festival Orchestra.

 

Mas a merda da liga de futebol, a merdinha dos jogos, e das intriguinhas, e de jogadores de futebol a receber milhões, essa tem de voltar no fim do mês e ninguém pia a dizer nada. Povinho de merda.

 

Digo-vos que não consigo perceber o apelo daquilo, não mesmo. Qual é a graça de ver aquilo, um grupo de gajos burgessos a correr aos pontapés numa bola a tentar enfiá-la numa caixa de rede? Qual é o interesse, qual é o enriquecimento intelectual? Que joguem entre amigos ainda entendo, mas... ver na televisão, e gritar muito por uma equipa e dizer que os fãs da outra são isto e aquilo (tudo insultos de baixa espécie)?

 

Olhem lá, se em vez disso regressássemos com concertos, ainda que com meia lotação, ou com a parte do público em online/tv directo, teatro, ópera? Não? Vamos continuar a nivelar sempre pelo baixo e rasquinha?

HarryReviraosolhos.gif

 

Mother did it need to be

Uma das coisas que me apoquenta no estatuto de ser mãe de alguém, é que assim que se é mãe, esse estado oblitera qualquer outra coisa que tenhamos sido ou sejamos ainda. Não nos deveríamos fazer de rótulos, no entanto a verdade é que os usamos e muito; como eu ponho autocolantes na capa das partituras, primeiro o do nome, depois o de filha, aluna, estudante, violinista, trabalhou ou trabalha aqui, tocou nesta ou naquela orquestra, ou aqui ou ali, escritora em horas vagas, leitora, observadora de pássaros selvagens, fã dos Pink Floyd, de Harry Potter, etc... e depois vem o autocolante de mãe, um enorme que se cola por cima de todos os outros. E de repente és mãe, e és só "a mãe de". Nos telemóveis de professores, e eu cheguei a ver isto bem de perto, é a mãe do R, a mãe da C, a mãe da T. Sabemos todos que também há pais, que também podem ver-se a ser só "o pai de"; e eu venho de uma família onde o encarregado de educação, por excelência, foi sempre o meu pai, o mais presente e aparentemente com maior capacidade de trabalhar connosco e de vir ajudar nos trabalhos de casa (comigo deixou de o fazer, creio, depois do 4º ou do 5º, a não ser nalguns grandes trabalhos de apresentação, em que dava uma mãozinha; nos outros eu já dava conta... já com o meu irmão, está constantemente a ter de intervir). Não me queixo; sei perfeitamente que tinha de ser assim, com a minha mãe a trabalhar em turnos da noite, e cada um à sua maneira deu o melhor que tinha em poder. Mas, tendencialmente, vi mais mães a serem mães de, e a serem eclipsadas por isso, do que pais; mesmo o meu pai, continou sempre a ter história por trás, personalidade e emprego. Da minha mãe, recordando e vendo bem agora, praticamente não se falava.

 

Não sei exactamente quem foi a minha mãe antes de ser a mãe de mim. Saber-lhe o nome, o emprego, a idade (que tantas vezes eu me esquecia a preencher a porra da ficha no início do ano lectivo que ela teve 39 anos pelo menos por uns três anos de seguida), e algumas histórias da infância e da juventude, só isso não chega. Que sonhos tinha antes de ser mãe, chegou a cumprir algum? Era ser mãe um deles? Do que gostava, a música que gostava de ouvir, o que gostava de ler ou ver, o que gostava de fazer, o que queria fazer a seguir? Não a conheço, nem sei bem do que ela gosta. Gostava de poder descolar o autocolante gigante de mãe que obstrui a visão da pessoa que está por baixo. Mas posso correr o risco de rasgar o que está colado em baixo. Então só consigo olhar, e perceber que está ali alguém que não é só isto, a mãe, que cozinha, lava, limpa, chateia-me para fazer o mesmo, manda-me arranjar a gola da camisa, o quarto.

 

E de repente tenho medo. Eu, que me esgatanho para ser alguém e ser ouvida, se algum dia chegar a ter carreira, vê-la cair e sumir-se debaixo do rótulo de mãe. Isto pode, e deve, ser uma espécie de egoísmo, muito pouco altruísta da minha parte. Mas, tendo trabalhado tanto, gasto tanto tempo, e esforço, e suor e lágrimas, não posso querer resguardar essa parte de mim acima do resto?

 

O maior medo continuará sempre a ser o de pôr alguém no mundo e não conseguir cuidar bem desse ser, obrigá-lo a passar por traumas que eu ou a sociedade lhe passamos. Não quero obrigar uma criança a ter-me como mãe, a ter como mãe uma pessoa que não está 100% à altura disso. Leio relatos de quem teve mães com depressão, com ansiedades, com transtornos, e sei que não estou em condições. Ou se formos a ver e tiver uma criança como eu fui, também não quero obrigar ninguém a passar pelo que eu passei. Uma pessoa basta, não perpetuemos a desgraça.

Eu sei que não há más mães. Aliás, nem me meto na forma dos outros criarem os filhos; estão a fazer o melhor que podem e o melhor que sabem, não há receitas nem fórmulas secretas para ser uma mãe perfeita, a possibilidade de correr para o torto está presente em todos os minutos e cada um improvisa ao jeito que melhor decidir. Há quem não estivesse preparada para ser mãe, há quem vá ler tudo o quanto é livro de maternidade em poucos meses para decidir até a cor das fraldas. Há quem deseje ser mãe desde nova, há quem simplesmente não queira ser mãe, pelos mais variados motivos, há quem se veja forçada a ser mãe e a engolir a realidade todos os dias e a fazer o melhor ou o menos mau por aquele ser, por quem em muitos casos nãe se sente empatia, há depressões pós-parto, há abortos, há crianças postas para adopção. Mas não cabe a nós decidir se são boas mães ou más mães; juízos há muitos, especialmente sem se ter a real noção do caminho por onde o outro está a passar.

Não posso esconder, porém, o receio de não só estar a gerar uma criança que pode sofrer, ou detestar-me e consequentemente detestar a vida dela, mas o receio também de me ver estampada com um rótulo por cima que não me permite ser quem eu sou, sobretudo quando já passei por tantos anos sem saber quem sou, e sem conseguir mostrar quem sou.

 

Talvez isto seja só uma mania minha. Talvez daqui a uns anos mude de ideias, embora deteste profundamente que me digam que vou mudar de ideias e que vou querer muito ter um bebé daqui a algum tempo, ou que é só uma questão do relógio biológico, como se o que sinto agora não fosse válido nem verdadeiro. Talvez um dia queira o autocolante de mãe; mas pequenino como os outros, por favor, e nada de colar por cima.

Como não fazer piada

Existe um violinista aí que anda na berra, ou andou, entre os estudantes de música (não sei dizer se entre as pessoas não-músicas também) que é o Igudesman. E é mais conhecido por fazer piadas musicais, como ir dançar para o palco enquanto toca, ou representar bonecos. O género de artista que vai fazer de palhaço em cima do palco para forçar umas gargalhadas no pessoal, para mostrar que a música erudita não é uma coisa assim tão séria, e que se pode brincar com isto tudo.

 

O problema está em que eu não me lembro de alguma vez lhe ter achado graça. As piadas dele não me dão sequer para um sorriso amarelo. E durante anos fui a única a pensar dessa forma, tanto que tinha de me manter calada e sair de fininho quando se começava a falar nesse assunto (não foram muitas vezes, mas foram algumas). Afinal, tive colegas no conservatório que resolveram dançar enquanto tocavam numa das apresentações de orquestra (não dancei, a minha coordenação motora e joelhos simplesmente não permitem tal feito, isto se quiser continuar a manter um mínimo de qualidade a tocar por mais de cinco segundos); um dos concertos a que levaram os alunos a assistir (e que eu não fui por falta de verbas e de paciência) foi a um grupo desse género artístico de piadas musicais. Confesso que até hoje tenho muita dificuldade em apreciar esse estilo de espetáculo. Talvez porque logo desde o início me forcei e me cobrei muito para levar isto tudo a sério, e sou uma pessoa demasiado séria e sem graça nestas coisas, talvez porque desde que me entendo por gente que tenho muita dificuldade em gostar de alguém que propositamente se faz de palhaço barato, e isto vem de certeza do lado do pai. Ainda hoje, só suporto algumas das piadas dos TwosetViolin porque é o género de humor auto-depreciativo a que me ligo um pouco mais, ou porque fazem algo mais baseado em situações que nos acontecem ou com filmes com atores que claramente não sabem tocar nem campainhas de porta no papel de violinistas virtuosi ou com pessoas que vão para concursos de talentos na televisão a tocar vergonhosamente mal mas com violinos feitos de diamantes. Sei lá, as piadas não parecem tão forçadas. E eu sigo páginas de memes de música. Mas passam anos, e continuo sem gramar o Igudesman nem que ele se pinte de dourado. Enquanto a maioria aplaude. Ama estas coisas.

 

Até hoje. Hoje eu descobri alguém (violinista) que também não vai com a cara do homem, e com uma razão que partilho, e passo a explicar: então não é que o homenzinho resolve fazer uma piada, pegando no facto do seu nome ter a particula "man" (homem) para fazer uma versão de homem, ele mesmo, com Mozart no pensamento, e uma versão dele mulher, mal e porcamente travestido com um vestido ridículo, com Makeup no pensamento; como é óbvio, a maioria (homens) riu muito e aplaudiu, enquanto algumas de nós ficámos a olhar e perguntámo-nos... continuamos nisto?

Continua a piada barata de que a mulher não é capaz de pensar em coisas mais sérias? Ou de que uma mulher que pensa em maquilhagem tem automaticamente menos inteligência e menos valor que o homem (que obviamente não pensa em coisas dessas)? Isso não entrou já no campo do "sexista"? E de mau gosto, já agora.

Aqui vai aquilo que parece ser uma novidade ainda para muitos, em pleno ano de sua graça de 2020: nem todas as mulheres gostam de, ou pensam em maquilhagem, vestidinhos e saltos altos, algumas gostam de livros, música, usar calças, filosofia e conhecimento, e mesmo que uma mulher goste de maquilhagem isso não a impede de também pensar e falar, e tocar, de Mozart. Nem a loira mais platinada, de cara mais cheia de base e batom, tem menos valor que qualquer um de vós. Que, enquanto sociedade, continuam a ditar que a mulher deve ser bonita, e deve usar maquilhagem, mas não demasiada ou demasiado evidente, só tínhamos de acordar com a pele perfeitamente lisinha, sem pelinhos nenhuns abaixo dos olhos, com uma ligeira sombra castanho-claro dourado sobre os olhos perfeitamente delineados com um risquinho preto e lábios carnudos, sumarentos, ligeiramente cor de vinho matte. Fazer uma piada destas é já só estar a fazer pouco de alguém. E agora já começa a fazer alguns dos espectadores mexerem-se desconfortavelmente na cadeira da plateia, já sem saber se ri ou se passa vergonha.

Não passa de uma piada barata, facilzinha, de baixo nível, a apoiar-se no facto de continuarmos a diminuir a mulher e tudo o que é considerado de "mulher".

 

Isto é o que me irrita nestes pseudo-comediantes baratos, não só em música, mas em todo o lado, a jorros. A piadinha barata e bacoca. O arzinho de puto rebelde e parvo. O fazer de palhaço deliberado, escorregar no chão para ver se o outro ri, e se rir escorrega-se mais três ou quatro vezes de seguida, sempre a mesma estratégia, sempre a mesma piada. Que já não tem piada, se formos bem a ver nem na primeira vez teve piada.

Querem fazer piadas, aprendam a fazer piadas. Olhem que elas, muitas vezes, nem exigem muito esforço, fazem-se a si mesmas.

 

Continuarei sem gostar de todo o resto do trabalho dele, claro, até porque na minha opinião já ouvi mais gente a tocar melhor que o senhorzinho. Porém, já não me fazem sentir mal por não gostar daquilo.

Cravos de 25 de Abril

Nunca me poderei cansar de explicar porque devo toda a minha vida, as minhas possibilidades, as minhas oportunidades, as minhas conquistas, os meus bons momentos, a este dia há 46 anos atrás.

Porque continua a haver quem não saiba, ou não queira saber, ou finja e não queira mesmo saber.

 

Continua a haver quem não se queira lembrar que antes desse dia, antes dessa hora, nunca alguém como eu poderia existir, poderia ir à universidade, poderia falar abertamente. Que houvessem ordens, ou falta delas, ou ordem em contrário, era aguentar caladinho, ou levar um cassetete no lombo na melhor das hipóteses caso se quebrasse a ordem. E eu sei que há agora muitos que queriam ver gente a levar com o cassetete neste momento, até chegar a vez deles. Não sei se já comentei aqui convosco, mas o povo português parece ter uma certa afinidade com a PIDE e com a Inquisição, na medida em que somos todos muito bons fiscais de cu alheio. Até chegar à casa deles, e aí se veria, que também somos grandes fãs do tipo que é esperto e se safa, que faz umas merdas e enriquece às custas de outros.

E do outro lado tenho histórias. A do António Saiote, grande clarinetista português, num estágio em época de escola, em que os músicos eram considerados pouco mais que analfabetos, não merecedores de maior nível de ensino. Nem grande parte da população. Especialmente os pobres, esses se tivessem a quarta classe já era um exagero. A história que me contaram um dia ao almoço, com os meus avós, que votar era o pai da família fazer um X num papel já todo escrito, a dizer como votava, e estava feito. Em quem se votava já lá estava escrito e nem havia discussão. Para além das histórias de miséria, de fome, de gente descalça e rota a trabalhar no campo até cair para o lado, de espanhóis que fugiam e cá eram caçados e levados de volta para serem exterminados.

 

Parece haver quem se esqueça de muita hsitória para vir dizer que antigamente é que era bom, e aquilo é que era o melhor homem português do século. Que este hoje não tem importância, que ninguém já lhe liga ou sabe o que é, ou que se devia festejar o 25 de Novembro.

 

Não consigo esquecer. Não consigo não dar importância. Olho para a minha família próxima, olho para mim, e não consigo não lembrar que se não fosse assim, se estivéssemos no bom do antigamente... não estariamos aqui, vivos, livres, plenos.

Mantenha-se à distância de dois violoncelos

Então deixem-me contar-vos como está a ser a quarentena que vai em... honestamente não sei em quantos dias, porque nunca os contei, porque a verdade é que tirando um dia por semana a minha vida não mudou, ir a casa dos meus pais levar taparueres e trazer comida não conta, está tudo igual ao litro incluindo a natural estupidez humana.

Muito estudo? Produtividade? Escrito o Rei Lear para violino e orquestra?

Pois... não.

 

Não sou mais produtiva em casa, apesar de já antes passar 90% do meu tempo de existência em casa, ao contrário do que possa dar a entender. Ter um dia por semana em que sabia que tinha de ter as coisas preparadas e que tinha de estar minimamente apresentável, ter um objectivo de no dia tal ter que estar tudo a postos porque é dia de concerto, ou dia de recital, ou exame ou audição, isso faz a produtividade. Estar com tudo fechado e no marasmo dos dias em casa só fez com que eu acabasse de ler com tudo o que tenho em casa, de um trago.

 

Não tenho nem tido aulas à distância regularmente porque, adivinhem lá? É um cu.

Para quem tem aulas teóricas, mesmo numa turma relativamente grande, o ensino à distância via Zoom pode ser um substituto (mas nunca por completo), mandam-se fazer mais trabalhos de pesquisa na esperança que o aluno por si vá ler mais sobre a matéria a ser ensinada/estudada e consiga compreender, além de apresentar trabalho que conta para avaliação.

Eu tenho aulas exclusivamente práticas.

Vou explicar para quem é leigo neste assunto, ou seja, para quem não é estudante de música: as nossas aulas, e a nossa avaliação, consiste inteiramente em pegarmos no nosso instrumento e tocar para os professores, analisar junto com eles o que estamos a fazer, o que está ou não está a resultar tão bem, como melhorar a performance, o som, o que se quer transmitir e conseguir métodos para melhorar. Tudo isto a nível do mais picuinhas que pode haver, minucioso no que toca à qualidade do som, tudo perfeito a 100% (já sabemos que ainda assim só vai sair a 99%). E isto tudo passa muitas vezes, para não dizer sempre, por perceber o que o nosso corpo faz e como se devia estar a fazer; que dedos usar, como levar o braço, o que mexe, o que não mexe. Um exemplo da minha parte: para eu tocar uma nota tenho de, para começar, segurar o violino e o arco como deve ser o que implica trabalho de pose corporal, ter em conta como vou começar a nota e portanto como vou pousar o arco ou se o arco já está na corda, depois puxar o arco, ter atenção a como vou mover o braço do arco para manter o mesmo ponto de contacto, a partir de que altura vou abrir o braço na zona do cotovelo, não usar o ombro, que presão exercer no indicador no arco, e no mindinho, se for nota longa rodar ligeiramente o corpo para acompanhar o movimento do arco e assim alargar mais a nota, se tem vibrato como oscilar o dedo que está na corda para produzir um vibrato que não pode ser nem muito largo nem muito nervoso miudinho, se está afinado, se o dedo precisa subir ou descer, ler a partitura e ler sempre à frente do que se está a fazer para haver tempo de reacção para tocar as notas, conhecer a música, saber o que o acompanhamento está a tocar para jogar em concordância com isso... em menos de um segundo ou já vais tarde.

Uma parte dos ajustes são feitos entre professor e aluno mano a mano, ou seja, o professor vai lá e corrige a mão mexendo-te nos dedos (okay, nem tanto agora na universidade porque na universidade espera-se que já saibas fazê-lo por ti própria, mas pode acontecer ainda outro tipo de ajustes). Pondo de parte a dose de debate que o contacto corporal já gera por conta de si e dos limites de cada um no que toca a contacto corporal, a questão aqui é como é que se faz isso em ensino à distência.

Ou melhor, como é que fazemos toda uma aula por uma chamada Skype, porque o Zoom recusa-se a colaborar no meu computador e lá se vai a teoria de que toda a gente tem acesso a este tipo de aulas, em que a imagem é um picasso barato e esborratado e a qualidade do som é de vómitos? Em que levo meia hora a decifrar qual é a arcada ou dedo que o professor quer mudar porque não existe a comodidade de ele vir cá à minha partitura com lápis e borracha e corrigir, como nas aulas presenciais? Mesmo que ele demonstre, ou que eu demonstre, levamos um bocado a perceber para que lado vai o braço, isto quando a imagem não trava ou não fica desfasado do som, que é quase sempre. Porque eu moro num centro histórico, numa casa de paredes grossas, onde os modems, routers e telemóveis só apanham rede pendurados à janela, e mesmo assim tenho mais sorte que se morasse com os meus avós. O professor nem sequer é capaz de perceber com muita clareza se estou afinada e a fazer dinâmicas (tocar mais piano ou tocar mais forte) pelo microfone. Sabe que eu toco afinado nas aulas por isso acredita, quanto às dinâmicas já falamos nisso e sabe que eu estou consciente do que devo fazer, mais exagerado ainda agora com gravações.

Já me garantiram que não vou fazer exame por videoconferência, seria impossível garantir que todos têm uma ligação estável. Não vamos fazer como outra universidade já declarou, exame por gravação com acompanhamento play along. Vamos, pelo menos, fazer sem o piano play along, porque isso seria meter-nos a correr atrás de uma gravação de piano, e não a nossa interpretação enquanto solistas. E assim já tive outra vez de mudar repertório, porque não posso tocar a sonata de Freitas Branco sem piano (perde o sentido que tem, é arriscado).

 

Adivinhem, então, a minha cara ao saber que alunos (e gente que nem sequer estuda lá mais) da minha universidade, a sua grande maioria de Gestão e agrobetos, estão a assinar uma petição para a reitora não iniciar aulas presenciais em Maio.

Que eles não queiram estudar, é lá com eles. Eu quero ter aulas, fazer a melhoria decentemente e acabar o curso com boa média. Aparentemente, só isso já é pedir muito.

plzkillme.gif

 

Mudando de assunto, o meu cabelo está uma merda. Enorme. A franja chega-me quase à boca. Ando com ganas de o raspar mas os meus pais não me deixam, estou farta do meu cabelo.