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Fantasma da Orquestra

A melancolia crónica de uma pseudo violinista maluca.

A melancolia crónica de uma pseudo violinista maluca.

Politicalidade

Tenho este post a marinar na cabeça já faz algum tempo. Esperava não ser necessário. É mais fácil dizer que não percebo de política, não discuto política e nem querer saber nada disso. Só que eu sou política, sei que sou. Assim como todas as pessoas, mesmo que não acreditem. A minha existência é política. Aquilo que pomos na mesa para comer é política, o que vemos na televisão além dos telejornais e debates e opiniões também é política.

Mesmo o não querer falar de política é política. É uma demarcação, empurrar o trabalho de pensar e de decidir e arcar com o consequente da decisão para outro, mas é política.

Portanto, vamos pensar.

 

Numa altura destas na História, já devíamos ter aprendido como as coisas funcionam. Eleges, ou pior, deixas eleger cocó, e o que obtens é cocó durante x anos num país. Convém ler as propostas escritas pelo candidato/partido, ainda que sempre com uma pitada de "sabemos que isto é tudo muito bonito no papel, mas e fazer?". Convinha também saber o básico dos básicos de como funcionam os poderes governativos no país, coisa que se calhar ficava bem ensinar nas aulas de Educação para a Cidadania, mas assim como a Igualdade de Género e de Identidade, essa parte não fez parte do que me ensinaram nessas aulas (que eram usadas para escrever recados na caderneta para os pais, dar apoio a outras aulas, jogar às cartas e ao stop e, quando algum professor se queixava, dar então uma folha com regras básicas de comportamento e dar uma ensaboadela à turma). E isto, o que se ensina ou não se ensina nas escolas, também é política, sabiam?

Passamos à conjectura actual. Eu vi alguns dos debates, não vi todos. Confesso que não tenho estômago para ver tudo (por exemplo, irrita-me muito pessoas que falam por cima das outras, a dizer que é tudo mentira, e que não assumem o que fazem). Posso dizer que faltou e falhou muita coisa nos debates, que não acrescentaram nada ao que eu já conhecia dos candidatos à presidência. Que um dos candidatos, e não preciso de dizer qual foi, usou estratégias de falácia e framing a torto e a direito nos debates, a boa velha técnica de se não tens ideias a apresentar e argumentos para contrapôr, ataca a cor dos sapatos ou do casaco.

Em muitos casos também já percebi que tentar falar com este candidato em particular ou com os seus apoiantes é o mesmo que jogar xadrez com pombos. Excepto que eu tenho paciência para os bichinhos, para estes é que não.

Não se falou de cultura. Não se falou de educação. Falou-se muito de saúde, porque o momento assim o exige, e de casos mais ou menos mediáticos.

 

Então agora eu vou dar-vos uma mãozinha (e façam o favor de não puxar muito o braço). Como "trabalhadora da cultura" (e infelizmente tenho de pôr entre aspas porque oficialmente ainda nada), já estou habituada a estar no fundo da preocupação da política. Como filha de pais de emprego mediano, filhos de trabalhadores no campo (não são agricultores nem lavradores, notem a diferença), também já estou habituada a estar na massa de população que ganha para sobreviver, ter um ou outro luxozinho, e fazer assim a vida: acima da pobreza, abaixo de se viver desafogado. Que é a mais larga fatia da população. Como pessoa queer, de identidade não binária e possivelmente assexual, sou considerada por muitos como uma coisa não existente, e um dos demónios agora da Agenda da Identidade de Género (é arco-íris, tem autocolantes do Freddie Mercury, e uma cor de verniz para as unhas para todos os dias do mês).

Dei-me ao trabalho de ler o programa eleitoral do partido Chega. No meio de uma diarreia de filósofos virados uns contra os outros e apresentado-se como um partido que é os dois extremos de um eixo ao mesmo tempo (segundo eles, são um partido liberal conservador), resultando numa coisa que não é carne, não é peixe, e não me parece que se classifique como legume, é verdade que lá escrito vem que todas as pessoas são iguais mas nem todas as pessoas são iguais, estingue-se o ministério da educação e vende-se a escola ao primeiro que demonstrar interesse, com preferência por um professor, acaba-se com o ministério da saúde e os hospitais passam a ser administrados por privados, fora com as feministas, os lgbtqia+ e os migrantes, contra o aborto e contra a eutanásia, cheques saúde para todos com o valor de 300€ e cheques educação, a não ser que falhes uma cadeira, aí começam a cortar. E um escalão único de impostos, o que significa que se tens muito dinheiro, na boa, nem faz mossa, se tens pouco dinheiro... olha pois, azar. Paga.

Quem acha bem? Não tem então noção do que é ser uma pessoa com doença crónica, onde só em consultas e medicamentos se estafam depressa os 300. Ou ter de fazer uma operação; a minha operação ao joelho, que teve de ser no privado porque não estava em risco de vida e levaria anos a consegui-la, custou mais do dobro desse cheque. Além de me ter dado a experiência de ver como no privado cobram tudo, detalhado na conta. Usaram um penso na ferida? Cobram-te. Enganaram-se no bisturi e tiveram de ir buscar outro? Cobram-te. As agulhas para o intravenoso, e todas as que tiverem de trocar no braço, os tubinhos, tu-do. Bonito. Mas eu gosto do SNS, apesar de tudo. Quando criticamos o serviço nacional de saúde, não é na ótica de "isto está tudo mal", mas para ver como um incentivo a melhorar. Demoraram três anos a chamar-me para uma consulta de psicólogo, quando eu já tenho histórico de depressão, ideação suicida e consultas de psiquiatria. Então é uma coisa a melhorar, chamar mais psicólogos para o quadro clínico, reforçar as consultas de saúde mental. O mesmo para as cirurgias de casos não urgentes. Posso dizer, no entanto, que para consultas de dentista é rápido e eficiente, podem não usar os equipamentos mais caros e recentes do mercado, mas a espera é curta e fazem o serviço. E o preço é para aí metade. Viva o SNS. Cuidem dele.

O mesmo para as escolas. Posso dizer que os professores não estão minimamente interessados em comprar escolas, nem preparados para o fazer.

A educação e a saúde não deviam ser negócios. E ainda assim, temos o público, e temos espaço para o privado existir e funcionar (o problema está que muitos no privado se convenceram que o Estado também lhes tem de pagar, ao mesmo tempo que se dizem querer livres do Estado...)

E depois, a questão das feministas e dos lgbt. Eu sei que somos um país que se diz laico, mas vai todos os domingos rezar a missinha. Só que já chateia continuarem a apregoar os movimentos pelas minorias como destrutores dos bons costumes. Quais bons costumes? O da mulher ficar em casa como mãe parideira de filhos e fazedora de sopa? A mulher continuar a ganhar menos que o homem pelo mesmo trabalho (e muitas vezes tendo ela mais formação que ele)? Achar que só um homem macho é que é, e que nenhum quereria mudar para mulher, essa coisa inferior? Amar outra pessoa só quando é do género oposto, como se género fosse dois pólos do íman? Já se questionaram como vai tudo bater à mesma tecla, a classificação entre dois tipos, em que um fica por cima e o outro por baixo, e não pode haver subida/descida/migração de um para o outro.

As feministas conseguiram que as mulheres pudessem ir votar. Conseguiram que a mulher pudesse sair à rua sozinha, como pessoa independente, e pudesse ter uma casa e uma conta bancária em seu nome, pudesse estudar além da quarta classa, ir para a universidade tirar um curso e ter um emprego. Vocês, mulheres, que estão desse lado, não vêm? O que seria a vossa vida se não tivessem isto tudo. Se não pudéssemos imaginar um futuro em que serão tão bem pagas quanto o vosso colega, em que não saem à rua à noite com medo de serem violadas?

A questão do batom vermelho, que surgiu: já repararam como se fala da cor do batom das candidatas, do fato ou vestido que levaram, do cabelo, mas raramente ou nunca se fala da cor da gravata dos candidatos homens, ou da aparência deles? E como a aparência da mulher é frequentemente usada contra ela: se tem mamas grandes, se tem mamas pequenas, se usa maquilhagem mais carregada, se usa só tons nude... tudo isso se transforma para apontar em como ela, mulher, é uma puta, ou uma púdica.

E qual é o problema com uma mulher sexualmente satisfeita?

É uma questão de poder. De assegurar que a maioria da população não tem poder. O aborto sempre existiu e sempre existirá, assim como a eutanásia. A diferença é que quem tem dinheiro e poder facilmente viaja até um país onde esteja despenalizado e faz o que quer. A mulher pobre recorre a métodos caseiros que muitas vezes resultam em morte. E continuariam a fazê-lo, porque de outra forma manter a gravidez também não teria um resultado melhor, e têm muito pouco a perder. A mulher que faz o aborto, fá-lo como um animal que arranca a pata à dentada para escapar da armadilha; é o desespero. A despenalização serve para assegurarmos que estas mulheres não morrem, que podem ter uma hipótese.

É egoísta pensar nestas situações sem passar por elas, sem estar nelas, e ter a noção do desespero, da sensação de já não ter tábua de salvação. Como podemos decidir o que eles podem ou não fazer consigo mesmos, quando não admitimos que nos quebrem, a nós, a nossa liberdade? Ser a favor do aborto ou da eutanásia, não significa que iremos abortar ou matar-nos; significa que damos ao outro a possibilidade de poder escolher.

 

A extrema-direita, este partido Chega, está a resultar bem no país, apesar do que vimos com Bolsonaro e Trump, porque temos muitas pessoas, que não são más pessoas, mas estão insatisfeitas e querem apenas o seu cantinho confortável, no entanto perderam a confiança no sistema. Só que em vez de irem na busca de uma solução melhor para todos, caem na segunda armadilha do sistema, em que este se estreita e desiguala mais ainda. Este usa os medos e os mecanismos comuns de defesa destas pessoas, e aponta "eles" como os culpados. O português mediano gosta muito de culpar essa terceira pessoa do plural, se alguma coisa está errada é porque eles fizeram, ou eles não aconteceram. Sempre eles. Eles, os comunas, apesar de em Portugal a extrema-esquerda se esbater para o que dantes era o centro do eixo político esquerda-direita. Eles, os homossexuais, os transgénero, elas as feministas. Eles os pretos, os chineses, os brasileiros, os ciganos, que vêm roubar o trabalho, apesar de há muito ninguém aqui querer ser servente de obra, ou apanhar batatas, ou vindimar, ou lavar escadas. Ou então não, vêm roubar o dinheiro e viver do subsídio. Como se o RSI fosse uma fortuna. São 181 euros.

Vão na conversa, julgando que vão ganhar muito, alguns convencidos que não pertencem à classe média-baixa, que estão acima. Não estão. E isso não deveria ser nenhum problema, nem vergonha. Quem trabalha, com o que tem, honestamente, deveria ter tudo para ter uma boa vida, e é para aí que queremos apontar. Mas não vamos lá chegar se dermos ouvidos a estes caminhos, onde o culpado é o outro e sempre o outro, e ele merece ser castigado por isso. O caminho que nos leva a achar mal que outros também tenham, porquê? Qual é o mal de todos terem acesso à saúde, de todos terem acesso à educação, e à cultura, de todos terem um salário para viver, de todos terem a possibilidade de existir, de viver, de amar? Onde é que isso nos lesa?

 

Pegunto eu, onde é que eu ser não binária, assexual, vestir-me como gosto, de calças e de cabelo curto e sem peitos, amando quem eu tenho sentimentos por, capaz de trabalhar com o meu violino e sobreviver com isso, onde é que a minha existência vos mata ou faz ferida?

Ou, respondam-me se conseguirem, quem são os portugueses de bem? Onde estão eles, o que fazem eles, o que pensam eles, esses portugueses de bem?

 

No entanto, a verdade é que nenhum dos candidatos estava preparado para enfrentar este candidato (excepto o Tino de Rans, que eu já desconfiava que fizesse uma das dele). Nem sequer os comentadores de sofá a que uma série de jornais paga uma crónica ou duas, por falta de melhor. Vêm dizer que há candidatos que nem se deviam ter dado ao trabalho de candidatar, e não estavam a falar deste. Da mesma forma que já me disseram que eu não merecia estar onde estava. Que quando nos levantámos para mostrar que a cor do batom não define o valor da pessoa, vieram cagar no movimento de todas as formas, e sobre a boca de quem proferiu este comentário, nadinha.

 

Cuidado. Leiam. Não se deixem acomodar, mas também não disparem a correr para o primeiro que começar muito aos pulos a dizer que faz e acontece. Interpretação de texto faz falta e recomenda-se. Vão votar. Com cabeça, com juizinho.

Outra vez ano-não

Então, primeira semana (já quase a terminar a segunda semana) do ano, e já:

- cancelaram os concertos que ia fazer em orquestra em Janeiro, antes de fazer ensaios mas já depois de eu ter impresso e estudado as minhas partes, e só não gastei dinheiro com bilhetes de expresso para as deslocações porque foi a organização a comprá-los (e eu senti a dor da organização a estar a passar por isto tudo outra vez...);

- me irritei com aquilo a que chamam debates na televisão (este tema fica para amanhã ou depois).

 

Vamos lá expôr a situação de forma que se entenda bem para os leigos, uma pessoa investe tempo e carga mental para estudar peças de música erudita, que não são fáceis e envolvem uma produção de uma gama de cores sonoras no instrumento, para apresentar em concerto. Leva mais de um mês só na preparação da logística de concerto e ensaios, organização entre todos os músicos e pessoal envolvido, ainda mais contando com todas as regras de prevenção. Para ser tudo cancelado, sem sabermos ao certo quando se vai repôr, nem como.

Dá mágoa.

Ainda mais quando, porra, saí à rua sempre de máscara e só quando estrictamente necessário (okay, baldo-me a pôr quando vou deitar o lixo ali ao virar da esquina, sozinha, apenas), queima as mãos a pôr álcool-gel em tudo quanto é lugar, seja do disponibilizado, seja do frasquinho todo pipi que comprei para levar na mala, lava mil vezes com sabonete e o caraças, e a água está fria que nem cornos porque em casa de pobre só se acende o esquentador para tomar banho ou lavar a loiça... enquanto mais de meio mundo resolveu armar-se em esperto e fazer festas de natal com todos (só aqui nas casas ao lado contei umas quatro, ou mais, tudo a terminar a altas horas da noite), festas no bar (ou por acaso julgam que não consigo reconhecer os bares da terrinha nos stories do instagram? também os frequentei, em tempos), e publicações muito lindas de gente que diz que é só uma gripezinha, que mesmo infectado andam a esconder e a sair, e ainda dizem que a máscara chateia muito e não tapam o nariz. Aqui na cidade foram só 15 badamecos infectados detectados às compras no Lidl e no Continente. Fantástico.

Acham que a máscara não me incomoda? Depois de uns dez minutos a andar, também tenho uma dificuldade tremenda a respirar pelo nariz, sinto os desvios todos do septo nasal que tenho e que nunca foi grande coisa, levo uma orquestra de apitos no meio da cara de cada vez que inspiro. Também me embacia os óculos, e deixo de ver. E, no entanto, cá estou, a cumprir. Não que seja uma ovelha mandada, mas prefiro ser uma ovelha mandada a ter que pagar uma multa, ou a ter o peso na consciência de infectar alguém cuja resposta corporal ao virús resulte nela estar quase morta a ser ventilada por uma máquina no hospital sobrelotado.

 

Nem vou falar muito no facto de que os concertos seriam pagos, e de ir passar mais um mês sem receber nada, sem conseguir arranjar trabalho a fazer o que sei e gosto de fazer.

 

Caramba, chateia. Parece que não se enxergam. Queixam-se de tudo, do governo, mas não passam sem a chico-espertisse de se safarem a fazer dos outros parvos. Até voltarmos a ter de encerrar as salas de concerto todas, os teatros, as bibliotecas, menos as igrejas porque neste país de beatinhos tanto se queixaram de não poder ir ouvir o padre a rezar o pai nosso e as avé marias. Porque claramente aí não há perigo de contágio, nem a comer as hóstias. E os joguinhos de futebol das ligas e do caraças também não pode faltar, mesmo sem público nos estádios, os outros que se lixem que nem sequer reunir uma orquestra para um concerto online se pode fazer. Cambada de pacóvios.

 

Estou chateada. Estou frustrada. Não adianta continuar a esconder os sentimentos, porque não resulta e já me trouxe bastantes problemas. Tenho raiva e mágoa, porque sinto que de nada adianta fazer, estudar, planear, ter objectivos, porque mais uma vez vai-me falhar tudo. E é mais um ano disto. Que eu já previa ir acontecer quando foi Março, porque sou pessimista e fatalista, e eis que se tornou realidade. E não, não me doeu menos.

2021

Depois da shitstorm que foi 2020, a minha vontade de fazer desejos, planificações e similares para o novo ano foi pelo cano abaixo. Como digo à minha mãe com a boca cheia de passas de uva, não vale a pena fazer desejos, porque tudo aquilo que eu desejo que aconteça é precisamente o que não acontece, portanto mais vale ficar quieta.

É isso, e tudo aquilo que eu digo, ou prometo, que vou fazer, com quanto mais antecedência o disser, acontece alguma coisa e falha.

 

Porém, não aja dúvida, que além da capacidade de amar profunda e estupidamente, e de fazer escolhas e interpretar símbolos, é característica humana a esperança optimista idiota e irracional.

 

Por isso, vou só dizer que tenho uma cena a cozinhar em lume brando, que pelo menos me vai proporcionar dois concertos se entretanto os víruzinhos derem umas tréguas ao pessoal (e o pessoal parar quieto um bocadinho, lavar as mãozinhas e tal). Se correr muito bem, pode ser que volte a ser chamada. O que significa que logo ao início vou com uma pressão em cima e muito provavelmente vou borrada de medo.

E vou ter que entrar em regime de estudo prático bem feitinho, porque meti na cabeça que este ano vou tentar entrar na ESML, em licenciatura outra vez. Isto porque ganhei uma vergonha e um asco enorme ao canudo que tenho, e quero refazer para ver se sai outra vez merda ou se melhora. (e porque sei que não entro em mestrado nem que me pinte de dourado) Ou, eventualmente, ir para o mestrado em Musicoterapia na Lusíada, cujo único defeito que encontro é que é super caro e ainda me vou endividar até às orelhas. Mas, entre ensino e terapia, mil vezes terapia.

Vamos a ver se este ano dá para fazer estágios. Marvão está em standby desde o ano passado, a ver se é este ano que regresso para estar com os alemanitos. E muito provavelmente tenho que fazer uma escolha entre Portel e Zêzere.

 

Além disso este ano promete ser o ano do lançamento do Matrix 4, que aponto para ser o dia em que finalmente vou alapar o rabinho numa sala de cinema (já lá vai mais de uma década que não o faço). Isto se não o adiarem outra vez.

 

E, claro, continuar a ler. Tenho uma versão fiel das Mil e uma Noites para terminar, a colectânea Necronomicon com tudo do Lovecraft para terminar, e mais uns quantos à espera. FICção está em standby porque comecei outra coisa que queria terminar de escrever antes de morrer. Logo se vê se tenho vontade e tempo combinados para isso, ou se fica quieto outro ano.

Vou tentar gravar umas cenas. Já que já perdi algum dinheiro em material, mais vale pô-lo a compensar alguma coisa.

 

Ai, a esperança. É uma coisa tramada.

2020

Ora bem, 2020...

 

Coemçou até bem. Tinha concertos. Tinha planos. Mesmo que a universidade me tivesse trocado um pouco as voltas com uma data, a coisa até nem estava pior.

E aterra a bomba da pandemia.

Porra, ano de merda. Posso mesmo dizer, ano de merda, fodido do caralho. Puta que pariu. A seguir àquele dia em Março que se lembraram de ter de fechar tudo, porque aparentemente as pessoas não são capazes de ter a consciência de limitar as festas, usar máscara e desinfectante, lavar as mãos, ter etiqueta respiratória e a responsabilidade de, sinto-me doente fico em casa, que tudo o que podia correr bem correu mal, e o que podia correr mal correu ainda pior.

Não subi a minha média de licenciatura. Neste momento tenho vergonha desse canudo. Não entrei para mestrado e a universidade deu-me o que podíamos chamar de um amável pontapé nos fundos. Perdi qualquer vínculo que com eles tivesse (a não ser para dizer que tirei lá duas licenciaturas e esturrei dinheiro neles). Tive um emprego(zito), tentei ir para outro, estive o resto do ano todo desempregada. E é como estou neste momento, desempregada, sem professor e sem perspectivas.

Resultado, uma das piores crises depressivas e episódios de ansiedade que tive.

Perdi uma colega. Não imaginava que fosse morrer alguém tão perto de mim, e de uma forma tão bruta e tão estúpida. Deixa um buraco enorme, agora. Ainda é doloroso.

Estágios e orquestras e concertos, nem vê-los, só consegui o estágio/curso no ZêzereArts no final de Julho que teve de saber bem por todos os que não tive. Ao todo, em todo o ano, fiz quatro concertos, menos que em todos os outros. Nada de festival em Marvão, Portel, aulas abertas na ESML... nada.

Coisas boas conto pelos dedos. Consegui, afinal, ao menos, quatro concertos. Fui à Exposição de Harry Potter, e adorei ir para lá passear. Tive quatro dias de praia. Comprei, finalmente, umas Doc Martens, e são boas pra caramba!

 

Se me preguntassem se eu imaginava que o ano ia ser assim, não imaginava. Se me dissessem, que aquela segunda feira de Março era o último dia que eu punha os pés na universidade, eu não pensava que fosse assim.

Mas foi um bom ano para as leituras. Entre os lidos, acabados de ler e relidos, conto uns 19 anotados, fora outros que não anotei, ou que só li pedacinhos, ou que ainda não acabei de ler. Mas, bastantes livros, e alguns muito bons, que me deram vontade de ler mais, e de escrever. Não quero ver a despesa que este ano fiz a comprar livros, que deve ultrapassar certamente a centena. O livro que mais me apaixonou e fez o ano falo dele aqui.

Já o spotify diz que foi mais do mesmo, a música que mais ouvi foi a What do You Wanna Know da Lince, montes de Mike Oldefield, Pink Floyd, Genesis, Rock e Classical Performance.

A música que me define 2020 é apenas esta.

Tenho medo de dizer que não pode piorar, porque parece que o universo leva isto como um desafio.

Não vou estar descansada nem quando o relógio bater as doze badaladas, porque o tempo é uma construção humana, e nada vai magicamente mudar. Posso dizer que tenho algumas poucas coisas ainda em estado de planeamento, e para se fazerem, e cruzo os dedinhos todos para ver começam as coisas a melhorar, que isto vai mal e eu duvido que aguente muito mais.

 

2020 não deixa saudades. Deixou muita mazela, isso sim.

Na Minha Estante #7

BaladaParaSophie_Capa.jpg

 

Balada para Sophie

Filipe Melo & Juan Cavia

 

 

 

Antes que o ano acabe, deixem-me falar deste livro.

Não costumo ler muito as chamadas novelas gráficas, ou histórias aos quadradinhos como lhes costumávamos chamar, apesar de efectivamente ter começado a ler com as revistinhas da Disney. Conto pelos dedos as poucas que tenho agora (o primeiro volume da coleção Sandman, e um de Hellboy, que entretanto não consigo já completar nenhuma delas). Banda desenhada, portanto. Embora com este livro, tenho pena de lhe chamar só banda desenhada, porque soa a pouco para o que é.

Quando foi lançado tive curiosidade por ele, como tive quando os mesmos autores lançaram Os Vampiros, ainda mais sabendo que falava de música e de músicos. Só que na altura o preço travou-me um bocadinho e deixei passar o pré-lançamento.

Até ouvir uma entrevista com o Filipe Melo e perceber que por dentro do livro está a memória, e uma homenagem, à Beatriz. Foi na Antena 2, onde voltei a ouvi-la tocar. Uma última vez, uma gravação, um pedaço congelado no tempo de quem ela era e aonde ainda pude voltar. De nós, que fomos colegas dela e que a conhecemos e acarinhámos, entre as pessoas com quem ainda falo, ainda dói, e ainda nos sentimos atordoados com o que aconteceu. Para mim, foi o suficiente para perder o amor ao dinheiro e, que se lixe, venha o livro.

Não me arrependi. Quando o acabei de ler, de um trago, chorei, não consegui perceber se de tristeza, se de alegria ou outra coisa qualquer.

 

Sim, é uma história sobre música, e sobre músicos. E sobre arte, e escolhas na vida, os percursos que ela toma, o que escolhemos fazer, ou o que escolhem por nós para fazermos. Vai buscar música clássica, e os vultos incontornáveis ao piano, mas também aqueles músicos e músicas fáceis de que parece que todos gostam e são feitas por medida para vender, coisas como Richard Clayderman e André Rieu. As velhas questões, vale mais cultivar a arte da perfeição, ainda que mais ninguém a aprecie, ou fazer estas musiquinhas e mover massas? Odeio o meu rival, mas amo o meu rival? A obcessão, os trambolhos no caminho, a incapacidade de perceber se somos capazes, se nos sentimos fraudes.

Cada personagem está viva, e acabamos por nos afeiçoar muito a eles. Vi um pouco de mim no Julien, e no François (podia dizer, eu sou a falta de dinheiro do François e a falta de talento natural do Julien). Vi um pouco de mim na Marguerite, e nos seus chás. Não tanto na jornalista, talvez porque desde o início projectei nela a sombra da Beatriz.

O argumento, o desenho, a cor, a conceção; tudo isso achei fantástico. É uma obra daquelas que tem força por si própria, bem delineada, capaz de se auto-sustentar e convidar à releitura.

Leitura mais do que recomendada.

 

Nuzes de Latal #9

Enfim, quase Natal.

Para não variar muito, num ano que foi uma bela merdinha, a tradição de ninguém em casa ter vontade para ir montar e enfeitar uma árvore de Natal continua, desta feita com a malta ainda mais desanimada porque não dá para sair de casa, mesmo que seja numa casa de rodas.

Enquanto isso vejo vizinhança estudantil em casa arrendada a dar festas, gente na tasca sentados num banco corrido coladinhos uns aos outros a beber e a dar festa,... dizer o quê mesmo?

 

Este ano para ser precavida, porque pessoa precavida vale por duas, decidi ir criando uma wishlist num dos separadores de destaques do Instagram. Deve ser mais para não me esquecer, porque quase ninguém da família tem conta e usa. E de lá até cá, continua forte e gordinha, porque só sai de lá alguma coisa quando me passo da marmita e compro eu mesma, ou porque corro o risco de certa coisa desaparecer e não voltar à venda.

E depois lembro-me que é óbvio que não me vão perguntar o que quero, porque se já antes o interesse era pouco, neste ano que anda tudo a levar as mãos à cabeça seria certamente uma surpresa se o pessoal decidisse dedicar-se à generosidade.

Vai daí que a dita cresce e não encolhe.

 

E claro que a prenda mais desejada é precisamente aquela que não se compra em lado nenhum.

 

Juízinho pró Natal, ó pessoas.

Borboletas Gigantes

Hoje a minha paralisia do sono brindou-me com uma nova, que foi dar-me alucinações.

 

Para os que desconhecem o problema, é simples: nalgumas pessoas, e já começam a aparecer muitos a quem acontece, sendo eu uma dessas quando ando mais cansada e, ahm, mentalmente desgastada, a paralisia do sono é um distúrbio em que o cérebro acorda da fase REM do sono mas o corpo não, e este fica paralisado. Há quem descreva como um desligar entre o cérebro e o corpo. Ou como falhar umas quantas etapas no processo de reiniciar um computador e esperar que ele funcione.

Já tive casos de sonhar que acordava e me levantava, para depois me dar conta que ainda estou a dormir, e repetir este processo até que acabo a fazer força suficiente para acordar de vez (e acordo mal, cansada, com falta de ar... quase sempre acabo por voltar a dormir por não ter força suficiente para me manter acordada). Já me aconteceu ficar paralisada no sofá com um braço mal colocado debaixo do corpo a doer-me e a sentir os nervos todos a adormecer, mas não me conseguia mexer para me virar. Chega a ser um pouco aflitivo, no entanto até hoje só posso dizer que é um pouco incómodo, e geralmente recupero.

 

Ora, hoje deu-me para alucinações. Eu tinha os olhos abertos, eu estava entalada neste processo de acordar e não me conseguir mexer, a olhar para a janela, e vejo borboletas. Gigantes. Maiores que a minha mão. A voar da janela do quarto, fechada, pelo quarto todo. E eram muitas. Daquelas de asas bonitas, com um rendilhado preto.

Devo-me considerar sortuda, porque há quem veja demónios e coisas de pesadelos. Eu só vi borboletas.

De resto, o normal. Fazer força para acordar até acordar exausta, a respirar como se tivesse corrido uma maratona de máscara na cara, e simplesmente deixar-me dormir outra vez para acordar dali a umas horas como se nada fosse.